Ester e Menotti
Me peguei pensando em como seria um bom começo para contar parte da minha história. Quando a minha avó narrava o mundo, as coisas pareciam mais fáceis. Mas hoje, como deixei anteriormente explicado na carta de reapresentação, trago nova pesquisa, com novas informações, sob novo olhar. Vou começar pela Itália.
A minha avó falava com muito carinho sobre os seus avós italianos. Acho interessante o quanto ela destacava traços comportamentais ou físicos até mesmo em mim, ao lembrar de seus afetos. Ela dizia que sua avó italiana (bem como as outras mulheres da família) traziam características físicas muito específicas, capazes de perdurar por gerações. A avó materna de minha avó chamava-se Ester. Vou começar falando dela....
Dados e anotações:
Esther Cavallari ou Ester Cavallaro. (1887 - 1961)
Avó materna de minha avó.
Filha de Felice Cavallaro e Bárbara Laurenti.
Nas pesquisas atuais, Gabriel - meu marido - a quem devo profunda gratidão, encontrou registro italiano (certidão de nascimento), no qual consta o nome "Ester Cavallaro". No documento de imigração, registrado na cidade de São Paulo - Brasil, o nome de Ester foi modificado para "Esther Cavallari". Entre os imigrantes, há registros de outras famílias "Cavallari" que podem não se tratar das mesmas origens.
Ester nasceu na comuna de Legnago, província de Verona, região do Veneto.
Dos irmãos de Ester, encontramos registros de três rapazes, que teriam vindo para o Brasil com a família ainda muito jovens. Os gêmeos Carlo e Giovanni (que posteriormente teriam relevância na produção industrial no Brasil) e o irmão mais novo, Ugo Cavallari (provavelmente nascido no Brasil, portanto, registrado com o sobrenome já modificado: Cavallari).
Menotti Sisti (28 de setembro de 1885 - 6 de maio de 1974).
Avô materno de minha avó.
Filho de Cesare Rafaelle Sisti e Ester Luigia Cavalini.
Nasceu na Itália, na comuna de Tresigallo, na região de Emília-Romanha, província de Ferrara.
Migrou para o Brasil em 1891.
Desembarcou no Brasil pelo porto de Santos no vapor Alvitá. Registrou-se em São Paulo em 1 de agosto de 1891, na região do Pari. Aparentemente, em seu sobrenome não houveram modificações de registros. No seu registro de desembarque consta a profissão "Contra Mestre de Alfaiate".
Minha avó se recordava de três de seus irmãos, embora - em nossas pesquisas - tenhamos encontrado registros de mais irmãos de Menotti.
Os filhos do casal Cesare Rafaelle e Ester Luigia totalizam em: Menotti, Albertina, Cesarina, Americo, Isidoro Ricciotti, Olga Natalina e Pedro Maria.
Adaptação no Brasil:
Minha avó contava que a esperança de uma nova perspectiva de futuro, junto à escassez de busca pelos serviços de alfaiataria culminaram na imigração de seu avô para o Brasil. A chegada no Brasil não trouxe abundância embora houvesse esperança. "Em meio à guerra as pessoas não encomendavam ternos. Meus avós passaram muitas dificuldades durante o período da Segunda Guerra.", relembrava minha avó.
Ester ajudava o marido a confeccionar bonés e outras lindas peças. Minha avó (ainda criança) tinha contato com os avós durante as férias, quando ia com a mãe e as irmãs visitá-los na Penha, em São Paulo.
"Durante a infância, sempre que aconteciam as grandes tempestades, eu e meu primo Roberto (do Rio de Janeiro, que também ia passar o Natal na casa dos avós) ficávamos nas calçadas da Penha pegando girinos." relata minha avó.
Ester e Menotti se conheceram no Brasil, vindos de regiões diferentes da Itália. Casaram-se entre os imigrantes recém-chegados, deixando o registro matrimonial em uma Igreja da região da Barra Funda, que consta na certidão de apadrinhamento de um dos filhos. Segundo as breves memórias contadas aos netos, Ester teria vindo de região e família mais abastadas, enquanto Menotti teria vindo de origens mais humildes.
Cartões de desembarque no Brasil:
(Esther já registrada como Esther - e não Ester - em solo brasileiro).
Sobre Ester:
Entre as lembranças de minha avó, ela destacava a beleza inigualável da avó, junto ao seu firme temperamento.
Conforme resgatou de suas lembranças de convívio na infância, os avós viviam bem e formavam um casal alegre.
"Mamma", como era chamada pelos filhos; "Vovó Mamma", como era chamada pelos netos, Ester adorava passar o tempo jogando damas, gamão, e outros jogos infantis com seus netos; e chegava a se irritar quando perdia. Entre as antigas recordações de minha avó - a italiana, belíssima, era também extremamente ciumenta.
"Vovó Mamma matava frango e peru para a ceia em seu próprio quintal." - completa.
Menotti e Ester tiveram nove filhos e, segundo minha avó havia uma expectativa de que uma de suas filhas nascesse com a beleza de Ester. Alguns de seus mais marcantes traços foram devidamente repassados à uma das filhas, Eda. Em outra ocasião, vou contar sobre os filhos do casal e o carinho que minha avó guardava por cada um de seus tios e tias.
Sobre Menotti:
De Menotti, as boas lembranças que acompanhavam minha avó baseavam-se em seu comportamento expansivo e sempre muito cativante. Ele se interessava por música, principalmente música popular e clássica. Costumava cantarolar com "voz de Tenor" as músicas italianas. E talvez muitos destes aspectos tenham perfurado, até mesmo, na minha vida. Eu ainda escuto as músicas italianas que minha avó cantarolava por causa das lembranças de seu avô.
Segundo minha avó, essa sua característica expansiva ao contar "causos" fora herdada do avô materno. Pelo seu profundo apreço pela música clássica, Menotti contatou-se com grandes maestros em suas viagens de trem. Minha avó o definia como uma "peça rara", que contava histórias fabulosas e tinha assunto para tudo!
Assim que começou a namorar o meu avô, Fausto, minha avó (que tinha por volta de seu quinze anos de idade), passava somente as terças, quintas e sábados na companhia do namorado. Ainda assim, tinha que estar em casa às dez horas da noite. Por esse motivo conta que, por diversas vezes, se irritou ao perder parte de seu tempo livre com o avô Menotti, pois ele atraía toda a atenção de seu namorado com suas histórias mirabolantes. Acredito que este seja um daqueles dados saudosos que marcam as breves lembranças.
Falecimentos:
Menotti saía todas as tardes para conversar com conhecidos na rua. Neste tempo, morava em Barra do Piraí - Rio de Janeiro. Com cerca de 90 anos, segundo relatos de familiares, tomou um prato de sopa e foi para o quarto. Em seguida, Bárbara (a filha que o acompanhou em seus últimos dias) escutou um ruído, som ou grito e correu para o quarto do pai, onde encontrou-o já sem vida. Minha avó dizia que, até seus últimos dias, manteve-se lúcido e muito alegre.
Ester (falecida em 26 de maio de 1961) faleceu em decorrência de um derrame cerebral na mesma casa em que seu marido morrera. Anteriormente, esteve por dois anos sem andar, locomovendo-se com o auxílio de cadeira de rodas. Conta-se que ela estava preparando a casa para a visita de minha avó Myrian, que havia acabado de se casar (em 20 de maio de 1961). Acordou, foi a uma capela de Nossa Senhora, rezou, voltou para casa e teve uma trombose nas pernas que desencadeou a causa de sua morte.
Para finalizar este mural de lembranças e detalhes, gostaria de colocar algo sobre o fim da vida de minha avó, Myrian, a guardiã das histórias aqui trazidas...
Minha avó falava muito sobre os avós dela. Tanto os avós italianos (maternos), quando os de Minas Gerais (paternos). Lembro do carinho que ela trazia ao citá-los e, certa vez, uma colocação me marcou. Ela disse que algumas pessoas que passam nas nossas vidas, passam por um período breve, mas marcam o suficiente para que estejam presentes na memória até o fim dos nossos dias. Ela conviveu com os avós somente durante a juventude. Quando ela me disse isso, ela já tinha mais de setenta anos de idade. Nessa mesma época, por questões neurológicas, ela ficou hospitalizada e a recordação mais inusitada que tenho deste período é dela falando algumas coisas em italiano, no mais completo estado de desconexão.
Me peguei pensando para onde vão os nossos sentimentos quando, até mesmo a mente já não é mais capaz de raciocinar como antes. O coração da minha avó, de certa forma, foi para a Itália, para o colo dos avós, para as histórias da infância e para as lembranças mais gentis. Mesmo que tenham se passado 50 anos.
Acredito que seja esta a função de resgatar histórias.
E, atenciosamente, espero conseguir ter o meu coração retornando - vez ou outra - aos colos de meus avós, sempre que puder.
Obrigada pela leitura!
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